Professores como aprendizes e o mercado de trabalho
Recorro à língua materna hoje para falar sobre uma temática que se colocou diante dos meus olhos aleatoriamente, enquanto eu checava o feed do Linked In: o papel do professor como aprendiz no contexto educacional. A colocação é a seguinte, em uma tradução livre:
"Líderes contratam aprendizes. É fácil contratar pessoas que investem nelas mesmas e que constantemente alimentam sua curva de aprendizagem" Jolie Miller
A colocação de Miller naturalmente é objeto de reflexões minhas, vê-se logo pela descrição do blog: Teaching and Learning with Dayse Muniz. Entretanto, não posso deixar de falar que o percurso de entender a importância do papel do professor como aprendiz me causou desconforto, quando fui abertamente afrontada por essa perspectiva pela primeira vez. Em uma palestra dada pelo educador Vinicius Nobre em uma instituição da qual fiz parte, Nobre constatou: "Professores não gostam de estudar." Me senti ofendida. Tendo acabado de terminar um mestrado e uma especialização, já aprovada numa seleção de doutorado, ouvir isso me pareceu ultrajante. Me senti confusa e injustiçada, mas com o tempo entendi a colocação feita por Nobre.
Hoje, estando inserida em contextos educacionais diversos dos que já estava habituada - leciono em uma escola particular bilíngue e na rede pública - de fato percebo que nós, educadores, não queremos sair da nossa zona de conforto. Nós, que falamos incansavelmente para pais e alunos sobre a importância da tentativa e da frustração, a proposição de soluções através de novos prismas, simplesmente ficamos na defensiva quando novas ideias são apresentadas. Alguns de nós, cientes de nossas próprias qualidades, as usam como uma armadura contra a novidade. Outros, com a autoestima diminuída pelo peso das instituições e da parentocracia, se prestam a ouvir sugestões e colocá-las na gaveta do dia seguinte, junto com os crafts incríveis divulgados no Pinterest. E qual o resultado disso? Uma prática que não se recicla, falta de fé na educação como propulsora social, um ódio constante ao capitalismo que destruiu o papel do professor como puro passador de conhecimentos, e não um vendedor de seja qual for o produto prometido aos clientes.
Apesar de me considerar uma pessoa estudiosa, percebi em mim a tendência de focar apenas em meus pontos fortes. Cursos de línguas, leituras complexas e práticas pedagógicas criativas, porém pouco diversificadas, comandavam minha trajetória profissional. Ao constatar que, apesar do acúmulo de diplomas e participações em eventos, eu não estava, de fato, tentando melhorar os meus pontos fracos, mudei a chave, para me tornar a fatia mais responsável pelo meu processo de ensino-aprendizagem.
Basicamente, estou restaurando a fé em minha profissão através de um olhar atento e constante para dentro. Na tentativa de me tornar aprendiz de meus colegas, alunos e superiores, me tornei uma pessoa menos ansiosa e mais sensível. Hoje, estou lutando para largar o pensamento que meus investimentos educacionais não serviram, não foram bons o suficiente, foram neglicenciados pelo olhar do empregador pouco misericordioso, que não percebe as muitas competências que tenho, e me massacra por conta de alguns pontos que precisam ser melhorados. Percebo que o processo de amadurecimento, lento e não-linear, me ajuda a buscar investir em mim mesma em âmbitos que não sejam o academicismo puro, simples e elitista. Entendo a virtude que mora na minha determinação, mas pretendo trancar a gaveta do dia seguinte, para começar a me tornar gente que aprende, tem sensibilidade e investe da maneira certa em si mesma.
Nesse momento estou tentando alimentar minha curva de aprendizagem de nutrientes que não sejam aqueles que meu corpo está acostumado, e entre caretas e prazer, escalo o meu Everest com menos culpa e mais dignidade. E por aí, você já admitiu no que precisa melhorar?
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