Lecionar em 2020: reflexões e desabafo de uma professora exausta

            2020 foi o ano em que mais aprendi na vida? Sem dúvida. Mas calma, não sou uma pessoa good vibes que acha que aprendemos com o vírus e que, por isso, valeu a pena. Não, não valeu. Vidas foram perdidas. Nada é mais precioso do que a vida. NADA.
            Como professora, enfrentei tantos desafios que nem consigo enumerar. Insegurança, medo, pressa, ter que pensar em milhares de soluções em pouquíssimo tempo, motivar os alunos, lidar com os responsáveis em um grau de intimidade jamais pensado. Vi minha privacidade diminuir a ponto de não estranhar mais tanta invasão. Chorei tanto, me frustei tanto.
            Por outro lado, descobri em mim alguém que não conhecia. Vi que tinha mais empatia, paciência e vontade de aprender e ensinar do que imaginei. No meio do olho do furacão consegui fazer um curso de extensão na UFF sobre Tutorias e Práticas EAD, sempre com o objetivo de alargar o olhar. Aprendi sobre inúmeras ferramentas. Exercitei a improvisação em um nível estratosférico. Mas sabe o que foi o mais difícil? Dar aula para as paredes. Senti falta de ver os meus alunos. Interagir, perceber suas personalidades, dores, humores.  A distância deles foi uma grande dor. 
          Tive a oportunidade de dar aula em uma Cooperativa e na Rede Pública de Ensino durante a pandemia. A partir daí, pude perceber algumas nuances entre os dois públicos, e também muitas similaridades.

O que foi diferente?
  • Na cooperativa os alunos (pelo menos os meus) não tinham problemas frequentes com aparelhos, conexão com a internet ou aquisição de materiais;
  • Na Rede Pública muitas vezes esbarrávamos nas questões econômicas. Alunos sem celulares, internet, livros. Não chegou a mim, mas provável que alguns deles enfrentaram situações mais graves, uma vez que muitas pessoas perderam o sustento.
O que foi parecido? 
           
  • Foi dificílimo ajudar os pais a  entender o que estava acontecendo. Muitos não tinham nenhum letramento digital, e não conseguiam ajudar os filhos a entrar nas aulas ao vivo, ou até mesmo acessar algum link, abrir um formulário. Tentei muitas estratégias, mas nem sempre consegui ajudar todos. Isso destruiu meu coração;
  • Falta de entendimento do papel do professor. Sim, se antes eu já achava problemática a noção do que a escola representa dentro das casas da pessoas, essa sensação piorou vertiginosamente durante a pandemia. Eu recebia mensagens o tempo todo, em horários e dias absurdos, e muitas vezes pedindo informações que já haviam sido dadas. Percebi que não adiantava gravar vídeos, áudios, escrever mensagens. Muitas pessoas esperavam que eu respondesse individualmente a mesma coisa inúmeras vezes. O maior problema nessa situação é: ninguém acha que o tempo do professor é importante. Ou que ele tenha obrigações além do trabalho. Ou ainda, que os alunos e pais possam procurar as informações sozinhos. No momento em que o ensino se tornou remoto, surgiu a crença de que o professor estaria disponível 24 horas por dia. A dinâmica de busca de informações e organização deixou de existir quando se percebeu que os docentes estavam disponíveis pelo celular. Um pesadelo.
  • Motivação. Quarentenar foi muito difícil. Para os que duvidavam, a pandemia deixou claro que o lado social da escola é fundamental para uma boa saúde mental. Dos alunos, dos pais, dos professores. Como é precioso o intervalo e o cafezinho, ver os amigos, contar histórias, perder os filhos um pouco de vista! Entendendo os desdobramentos dessa solidão, é possível ter empatia por alunos que não conseguiram se adaptar, sofreram, se sentiram expostos, tiveram medo. Algumas turmas aproveitaram muito bem a oportunidade de salas silenciosas e recursos digitais, mas para muitos alunos a tecnologia não foi um facilitador.

         Esse texto não tem a pretensão de esgotar as minhas sensações do que foi o ano de 2020 profissionalmente. Mas hoje acho importante falar que a pandemia escancarou o nosso desamparo, despreparo e falta de investimento na educação. Hoje, preciso dizer para vocês que vi alunos brilhantes ofuscados por pais que não contribuíam para que eles pudessem ter um ambiente silencioso. Pessoas que não entendiam que os filhos precisavam de privacidade. Vi alunos incríveis que não puderam acompanhar aulas ao vivo por falta de internet, aparelhos. Pais e mães preocupadíssimos, sem empregos, que entravam em contato pedindo desculpas por alguma falta. Coordenadores tão atolados de trabalho que sequer puderam descansar mesmo nos pequenos recessos desse ano surreal. 
        A pandemia nos mostrou que existe todo o tipo de problema: falta de suporte familiar e governamental, falta de expertise de vários profissionais na nossa área, alunos desinteressados que não tentavam minimamente contribuir, fazer parte, ligar a câmera. A pandemia nos mostrou que existe todo o tipo de luta: famílias que não conseguiam ajudar os filhos por não saber como, crianças sem tranquilidade para estudar porque suas casas não poderiam suportar tantas pessoas ao mesmo tempo, tentando viver em meio a uma aula ao vivo aqui, uma criança chorando ali. Vi vários profissionais que aprenderam tanto, em tão pouco tempo, que eu não poderia estar mais orgulhosa. Pessoas que depois de anos em salas de aula tiveram que mudar o jeito de ensinar (TIA GORETE, ESSA É PRA VOCÊ!). Vi alunos que não entendiam a matéria, e que pediam ajuda, buscavam, tentavam de novo. Tive alunos assistindo a aula ao vivo na 3G porque para eles era muito importante a interação que ocorria ali, mais rica do que a gravação que eles poderiam ver apenas alguns minutos depois. 
            Mais do que nossas falhas, dores, esperanças e perseverança, acho que aprendemos em 2020 que não existe nada mais importante do que a ligação escola comunidade. Sem a comunidade, não teria sido possível ensinar nada, não importa quão preparados estivéssemos tecnicamente. Sem a escola, como essas famílias teriam passado pela pandemia emocionalmente? Sem nossa troca diária, nossa preocupação.
        No fim de tudo, devo ser honesta e dizer que não estou otimista. Inúmeros docentes foram além do imaginável para entregar aulas criativas, significativas, amorosas. Muitos responsáveis fizeram o mesmo. A verdade é que, principalmente por questões econômicas, o fosso da desigualdade virou um cânion, profundo e escuro. Por enquanto, deixo registrado o meu cansaço, frustração, esperança, amor, dor, orgulho, desespero. Não sei colocar 2020 no saco de uma emoção só. 
        Ainda em tempo: não dá pra falar dos professores nesse post. Eles merecem um especial só pra eles. <3 



Comentários

  1. Seu texto é emocionante, vivo e cheio de afeto e orgulho por sua profissão, colocada à prova em níveis inimagináveis em 2020. Tenho certeza de que outros professores que lerem seu relato vão se identificar de imediato. No final, apesar de todos os reveses, que sorte esses seus alunos tiveram, por terem você ali por eles. ❤

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  2. Falou tudo, minha querida amiga. Faço das suas palavras as minhas. Entrei para a secretaria no meio de todo esse furacão. Não poderia ter teste maior para minha vontade e vocação para a área da educação do que este ano de 2020 em meio à pandemia. Estamos terminando o ano letivo e sobrevivemos! Sem dúvidas fizemos o que estava ao nosso alcance para o êxito. A luta continua. Um grande abraço!

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  3. Parabéns pelo post! Não pude acompanhar tão de perto o olho do furacão (já que fiquei desempregado em junho), mas com os alunos particulares pude perceber, em menor grau, sensações muito semelhantes.
    Muitos deles tem filhos e passaram por muitas das dificuldades e adaptações relatadas. Parabéns e obrigado por compartilhar esse texto que traduz o sentimento de muitos educadores por aqui!

    Marquinhos 🤗

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    1. Pois é, migo. Você foi um dos grandes profissionais prejudicados por uma visão mercadológica da profissão. Triste!

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  4. Miga, quisera eu ter tido a sorte, por algum descompasso do mundo, e ser sua aluna. Educar é mais que ensinar. É motivar. É conduzir por um caminho. Sorte a dos seus alunos! Achei seu texto incrível. Profundo e delicado. Eu conheço a sua trajetória na docência e sei o quão dedicada é. É ávida por ensinar e muito mais por aprender. Repito: sorte a dos seus alunos!

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  5. É um período em que grita a necessidade de refletir sobre o que é ser professor no país que concebeu Paulo Freire mas teima em manter a educação industrial....

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  6. Vc é demais! Que sorte a nossa por vc por perto! Saúde!!!

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  7. Muito bom! Me identifiquei com muitas coisas eu seu relato. Eu não peguei todo o processo de adaptação que os professores precisaram fazer entre o ensino presencial e o remoto, me considero uma pessoa com sorte, pois peguei uma escola que segurou minha mão e caminhou comigo enquanto eu descobria as maneiras de melhor ensinar. Tive que pegar aplicativos que usava no dia a dia e descobrir novas funções que me ajudariam na didática e no lúdico, uma maneira de tornar as aulas mais interessantes. Vi pais se colocando no lugar do professor e dispostos a ajudar no que fosse preciso para que seus filhos pudessem aprender o máximo que esse ensino remoto podia possibilitar. Vi relatos de escolas que decidiram somente carregar atividades na plataforma e impressas, abrindo mão das lives, que foram um veículo importante para interação. A escola nos deu a liberdade de escolher se queríamos ou não ter contato direto com os pais, respeitando nossa necessidade de privacidade. O ano que eu fiquei as professoras decidiram se reunir, assim éramos 3 pessoas montando atividades, preenchendo documentações e nos revezando durantes as lives, cada uma ajudando e respeitando os conhecimentos da colega, eu normalmente corrigia as atividades de matemática porque sabia mexer melhor nas funções do paint, eu normalmente sou horrível nessa matéria, mas estudei e planejei a melhor maneira de passar os conteúdos e corrigir, foi divertido e assustador

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    1. Só de ler já imagino o perrengue. Acho que todo mundo que atuou na Educação Infantil merecia um monumento de honra, de verdade. Obrigada por compartilhar aqui tb seu relato! Beijos.

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  8. Dayse, parabéns pelo relato sensível — prova de que você é uma educadora interessada (nas aulas, na escola, na relação entre pais e professores, professores e alunos, pais e alunos, professores e coordenadores..., na realidade social e seus múltiplos aspectos, enfim). Que 2021 seja mais feliz. Beijo.

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    1. Obrigada, Maria Amélia. Recebo com agrado votos de um ano melhor!

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  9. Sensacional, Dayse! Entrei de licença poucos meses depois de começar o isolamento social e o sentimento é esse mesmo. Me senti representada aqui.

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    1. Quantos desafios pra um ano só, né? Ainda mais pra nós, mães e professoras. SOS!

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  10. Querida sobrinha, que orgulho tenho de vc! Professora, MÃE ,esposa, mãe de gato, por quantas vezes presenciei sua dedicação, sua responsabilidade e o prazer de poder trabalhar e ver seus alunos felizes.Tudo que fizestes foi por amor, isso sim foi SURREAL.

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    1. Tia, você viu de camarote. Haja coração. Obrigada pelas palavras! <3

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  11. Que lindo Dayse, me identifiquei demais. Meu desejo pra 2021 é que o nosso trabalho seja mais valorizado e a educação também. Feliz ano novo pra vocês!

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  12. Numa época em que quase toda sociedade começa a questionar o trabalho dos professores, numa atitude de auto defesa, querendo naturalmente eximir- se de suas próprias responsabilidades e encontrar alguém que assuma o fracasso da qualidade de ensino, a tarefa dos profissionais da educação se torna cada vez mais gigantesca.
    Sentindo-se pressionado pela sociedade, o professor vem se ressentido do seu cotidiano profissional. O trabalho do professor tem sido sistematicamente visto como sendo apenas a atividade de "dar aulas" , esquecendo que envolve o antes, o agora e o depois.
    A experiência diária tem revelado que inúmeros obstáculos, reveses, fracasso e frustaçoes podem abalar a motivação dos professores como no caso da prof. Maria Francisca Teles de São Benedito do Rio - Ma que para ministrar aulas recebia R$ 13,45, quando o salario mínimo vigente era de R$ 70,00. "Verdadeiramente não tenho condiçoes de preparar alguém para a vida, pois o que eu ganho não é suficiente eu viver" desabafa a docente na edição do jornal Correio Brasiliense, de 16 de abril de 1995.
    Parabéns prof.Dayse pela invejável prática pedagógica. A educação agradece esse engajamento libertador.

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    1. Parece que quanto maior o esforço menor o reconhecimento. Difícil demais!

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