Os seus alunos produzem bem em sala de aula? Afinal, o que é produção de qualidade?
O sinal toca. Tic tac. Professores andam rapidamente pelos corredores, cumprimentam os alunos, esperam que eles finalmente se acalmem para que a aula comece. Tic tac. Mas a aula ainda não começa. Entre os recados iniciais, conversas corriqueiras e a chamada, um precioso tempo escorreu pelo ralo. Tic tac. No caso do ensino de línguas, o tempo gasto em tudo o que não seja produção parece ainda mais angustiante. Afinal, em que outro lugar esses alunos e alunas terão acesso (e mais do que acesso, oportunidade de interação) com a língua estrangeira?
Em Teaching by principles, de H. Douglas Brown (2000), o autor fala dos doze princípios fundacionais para o ensino de línguas, e um dos princípios linguísticos a que ele se refere é a competência comunicativa, que é uma combinação de uma multiplicidade de componentes, como:
i. a competência organizacional (gramatical e discursiva)
ii. a competência pragmática (funcional e sociolinguística)
iii. a competência estratégica
iv. as habilidades psicomotoras (pronúncia)
De acordo com Brown, uma vez que a competência comunicativa é o principal objetivo de uma aula de línguas, os componentes citados acima precisam ser alcançados através de uma prática que observe, entre outros fatores, o uso da língua, a fluência e não apenas a acurácia e o uso autêntico do idioma ensinado em contextos realistas (BROWN, 2000, p. 69). Bastante coisa para se considerar na preparação de uma aula! Apesar da importância da reflexão sobre a natureza das atividades disponibilizadas pelos alunos, se elas abrangem ou não os componentes trazidos por Brown, o objetivo hoje é, na verdade, pensar o seguinte: o que é produção? Quando, de fato, sabemos que os alunos tiraram um bom proveito do tempo em sala de aula?
Antes de mais nada, gostaria de salientar que o contexto educacional faz muita diferença para a reflexão. No ensino regular e nas escolas públicas dificilmente temos um ambiente escolar silencioso e com boas condições de trabalho; nas escolas privadas de idiomas ou até no ensino regular, por vezes temos recursos apropriados, mas nos falta agenciamento. Quantas vezes os professores têm que ouvir em reuniões que precisam entreter, conquistar, maravilhar os alunos? Será que, ao nos despirmos de nossa função como educadores e nos tornarmos provedores de entretenimento, pensamos ativamente sobre a produção feita em sala e a o seu grau de profundidade?
Há anos que digo isso, e vou repetir mais uma vez: ninguém ensina apenas uma matéria. Sou professora de língua inglesa, mas dentro de sala de aula preciso que meus alunos desenvolvam o letramento digital, as habilidades sociais, a habilidade de mediar conflitos e negociar, o gerenciamento de tempo. Quando falamos para os alunos: "Sentem-se em duplas e perguntem sobre o fim de semana um do outro", esperamos deles a ativação de uma série de conhecimentos que não perpassam só a competência comunicativa. E se o aluno está sentado ao lado de alguém com quem não tem intimidade? E se a instrução não foi clara? E se por acaso aquele aluno faltou duas aulas seguidas e não tem competência organizacional ou pragmática para lidar com o desafio proposto? E se ele não sabe a motivação daquela atividade?
Acredito que expectativas realistas e uma rotina bem estabelecida podem minimizar eventuais contratempos em sala de aula, permitindo que as aulas sejam melhor aproveitadas. Fazer conexões entre os conteúdos anteriormente trabalhados e o que está sendo ensinado, informar os alunos sobre o objetivo a ser alcançado ao fim da aula ou atividade e dar sempre exemplos de construções gramaticais ou até mesmo listas de palavras são boas maneiras de aumentar a produção em sala de aula. Não menos importante, permitir que os alunos protagonizem a prática educacional, de maneira que os professores sejam mediadores dos processos, apesar de trabalhoso no início, traz bons resultados a longo prazo. Resoluções de problemas em grupos, atividades que de fato exijam interação e instruções e tempo de execução bem estabelecidos são estratégias simples, porém eficazes em sala de aula.
Pretendo trazer exemplos mais práticos no futuro, mas para hoje, fica a dica: toda a interação, negociação e resolução de problemas que acontecem para que um desafio proposto seja resolvido é produção! E você, o que faz para potencializar a produção dos seus alunos?
Fonte: BROWN, Douglas H. "Teaching by principles". In: Teaching by principles: an interactive approach to language pedagogy. Second edition. New York: Longman.
#produção #competênciacomunicativa #ensinodelínguas
Muito legal! É visível o 'boost' na motivação dos alunos quando colocamos os 'can do' deles ao final de cada aula. Melhora a nossa prática porque temos nas mãos um instrumento avaliativo bem melhor do que provas conteudistas, na minha opinião.
ResponderExcluirExcelente trabalho!
Eu adoro usar essas estratégias também. Fica bem mais palpável, não é?
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