Algumas considerações sobre avaliações: por uma prática pedagógica dialógica
Já comentei aqui no blog sobre como a experiência em sala de aula mudou com a pandemia. Para checar o post, só clicar no link: Lecionar em 2020: reflexões e desabafo de uma professora exausta. Pois bem, o ensino remoto que foi forçado a nós por questões sanitárias ainda está me fazendo ponderar bastante. O foco de hoje é: como estamos avaliando os discente nessa realidade?
Durante a pandemia lecionei várias faixas etárias e contextos educacionais e socioeconômicos muito distintos. Agora estou primordialmente no ensino superior com a disciplina de Literatura, e já posso dizer que vejo similaridades em todos os níveis. Percebo principalmente problemas no letramento digital e uma interação longe do ideal e do que seria plausível em uma aula presencial. Vou me explicar melhor. Alunos tímidos, atrasados, que não gostam da matéria sempre existiram e sempre existirão. No entanto, tenho a impressão que a dificuldade do ensino remoto faz muita gente pensar que está tudo bem não participar, interagir, se posicionar. Sigo dando aulas para as paredes. Sigo dando graças a deus por cada aluno que abre o microfone ou dá boa noite no chat.
| Saudades de aglomerar com meus alunos! |
Tento me equilibrar entre a empatia, o entendimento das dificuldades técnicas e o fato de que poucas pessoas estão preocupadas com a dor dos professores, que precisam inventar a roda enquanto os alunos não querem tirar o pijama. Veja bem, não estou falando de quem não tem uma câmera disponível ou está em um ambiente muito barulhento para ligar o microfone. Tenho muitos alunos que assistem aulas em ônibus, dirigindo, tentando fazer uma refeição. Não me refiro a eles. Estou falando de uma perpetuação de uma educação bancária, em que o aluno fica passivamente sentado, esperando o depósito do professor. Como lidaremos com isso? Sinto que os estragos da pandemia serão irreversíveis no que toca a interação em sala de aula. Eu não ficaria surpresa se, depois da COVID, os alunos simplesmente virassem as costas para mim no ensino presencial, uma versão atualizada do "não quero ligar a câmera ou o microfone, me obrigue se puder".
Findo o desabafo, vamos ao tópico. Como ficam as avaliações com tão pouca interatividade? Como posso observar meus alunos, perceber seus medos e inseguranças, sentir a empatia deles, se eu não tenho nenhum recurso que me permita entender os processos pelos quais eles passam? Fiz um fórum só para bater papo, disponibilizo meu e-mail e na minha aula todo mundo sempre tem espaço para tirar dúvidas, comentar o conteúdo. Busco ser organizada e fazer a minha parte com antecedência, mas me parece que a avaliação virou um momento estrito de checagem de desempenho. O aluno faz algumas atividades. Fim. E a avaliação continuada? Não vou nem entrar hoje no papo de "só faço se valer nota". Esse aí por si só já dá um post inteiro!
Sofro porque sou adepta da ensinagem. Essa definição, resgatada por Pimenta e Anastasiou no livro incrível Docência no Ensino Superior (2014), aponta que
Na ensinagem, a ação de ensinar é definida na relação com a ação de aprender, pois, para além da meta que revela a intencionalidade, o ensino desencadeia necessariamente a ação de aprender. Essa perspectiva possibilita o desenvolvimento do método dialético de ensinar. (PIMENTA; ANASTASIOU, 2014, p. 205)
O que a ensinagem desnuda é que não importa se o docente sabe tudo do conteúdo que ministra, usa milhares de recursos e é muito criativo. Uma boa aula precisa de interação, de conversa. Exige dialogismo, entrega das duas partes. E antes que alguém afirme que o bom professor cativa, acho a argumentação injusta. Como vai ficar a saúde mental dos professores se couber exclusivamente a eles a responsabilidade de ensinar, encantar, persuadir, contemplar? Não se esqueçam que o momento é difícil para todo e qualquer ser humano. É preciso que o caminho seja galgado com mais companheirismo.
Na minha mais de uma década de experiência aprendi que quanto mais claras e continuadas as avaliações, melhor se desenvolve o processo ensino-aprendizagem. Avaliações como provas e ditados são importantes e precisam acontecer, mas mais do que verificar o conteúdo apreendido, a avaliação precisa ser útil fora do ensino formal. Inúmeras habilidades são necessárias para que se possa viver em sociedade, e eu acredito que as avaliações precisam refletir isso. Cito aqui habilidade de resumo e organização de pensamentos, negociação, gerenciamento, postura crítica, oratória, capacidade de se posicionar e explorar uma ideia, uso de recursos pedagógicos e tecnológicos diversos. Além disso, as avaliações devem ser capazes de imprimir uma memória duradoura, significativa. Tirar da zona de conforto ao mesmo tempo que é parte de um corpus diverso o suficiente para abarcar sujeitos que percebem o mundo por uma ótica particular.
A pandemia me roubou a possibilidade de olhar meus alunos nos olhos, os observar de perto, demonstrar que me importo com uma troca cúmplice de olhares. No entanto, existe vida atrás da tela. Vamos refletir sobre isso? Como professor, você pensa nessas nuances quando decide as avaliações? Como aluno, você está disposto a sair da zona de conforto e também entender a parte que te cabe na própria aprendizagem, na sua oportunidade de se tornar mais capaz? Comenta aqui embaixo!
Muito bom, Dayse. Eu não conhecia este termo: "ensinagem". Realmente é um momento muito delicado para professores e alunos, para o ensino e para a aprendizagem em geral, que vai refletir no período pós-pandemia. Que espécie de troca está acontecendo? Alguém consegue de fato aprender e ensinar assim, à distância? É possível construir um saber sólido, uma amizade pelo conhecimento nos dias de hoje?
ResponderExcluirNo ano passado, quando a turma da minha filha mais velha vinha estudando em casa e há meses com a câmera desligada, lembro-me de ver um professor do ensino fundamental II chorando horrores numa determinada aula em que os alunos resolveram fazer uma surpresa pra ele e abriram as câmeras e os microfones. Demonstrou o quanto o coitado estava fragilizado depois de falar tanto tempo pras paredes.
Acho que a palavra é essa, Maria Amélia. Nós, professores, estamos fragilizados. Eu acredito muito no ensino a distância, acho que o que falta é postura mesmo, sabe? Vamos aprendendo juntes...
ExcluirTexto incrível, pessoalmente me pego pensando qual a qualidade do ensino das aulas que ministro e qual a forma mais adequada para tirar eles da zona de conforto de forma justa. Porém ao mesmo tempo não vejo essa reciprocidade por parte do corpo estudantil, é claro que muitos estão lá assistindo e se esforçando. Sabemos a tempos que nem todos os alunos estão lá de mente presente nas aulas mas isso parece ter aumentado de forma exponencial e logo no 2° mês de aula entendi que "falar para as paredes" iria acontecer com frequência. É aceitei isso até bem pois do contrario estaria cada dia mais fragilizado em saber que mesmo ao procurar trazer recurso mais novos e interessantes isso não iria atingir os alunos. Para não me alongar ainda mais acredito que nos professores devemos nos fortalecer e entender que o ensino é uma via de mão dupla e que devemos estar tranquilos em fazer nossa parte e que mesmo que isso não traga o resultado esperado nos alunos isso não significa que sejamos ruins ou ineficazes para o ensino online mas que o ensino é também responsabilidade do aluno.
ResponderExcluirAcho que preciso colocar esse tópico aí na terapia: aceitar a falta de interação e seguir na profissão. Anda difícil, viu?
ExcluirA complexidade do ensino remoto se torna cada vez maior, os métodos utilizados para avaliar não são seguros, pois em alguns momentos não tem como identificar se o pensamento desenvolvido ali é só do aluno.
ResponderExcluirA necessidade de utilizar a tecnologia pegou muitos professores desprevenidos, desenvolver aulas atrativas se tornou uma luta diária e quando nos sentimos dando aula para as paredes questionamos se estamos desenvolvendo um bom trabalho, se o que estamos fazendo faz alguma diferença.
Eu vejo as famílias dos alunos buscando empatia sempre que eles têm dificuldade com alguma coisa, e é compreensível, estamos passando por momentos difíceis, na saúde física, mental e social, porém da mesma maneira que todos eles buscam entendimento, também posso supor que no primeiro erro, na primeira dificuldade não haverá empatia para com o professor, parece que algumas vezes esquecem que o educador é também um ser humano com sentimentos.
É uma alegria quando os alunos pedem por mais no momento da despedida, entretanto não é sempre assim e temos que entender que devemos buscar fazer o nosso melhor e torcer para que os alunos também façam.
Que a gente possa superar esse momento e seguir em frente da melhor maneira possível!
Sinto muito isso também, Taylane. Parece que nós não estamos na pandemia, só eles, né? Triste!
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