Algumas dicas para incluir a literatura nas aulas de língua estrangeira - parte I
O Brasil não é um país de leitores. Na última pesquisa do Instituto Pró-livro, o mais amplo estudo sobre o tema de acordo com a Folha de São Paulo, a média de leitura de literatura em 2019, no período de um ano, foi de 1,45 livros. Se temos uma porcentagem tão baixa na língua materna, imaginem em língua estrangeira!
Como professores e professoras de línguas, sabemos que nossa ação pedagógica vai além de competências linguísticas. Cientes da relevância de fatores culturais e sociais na nossa prática, será que lembramos da literatura? Entendemos como ela atravessa língua, cultura e sociedade? O crítico literário John Sutherland, no livro Uma breve história da literatura (2017, p. 10) aponta que
Para a maioria das pessoas perspicazes, a literatura desempenha um grande papel em suas vidas. Aprendemos inúmeras coisas em casa, na escola, com amigos e com lições de pessoas mais sábias e mais espertas que nós. Mas muitas das coisas mais valiosas que sabemos vieram da literatura que lemos.
A proposta que trago hoje é exatamente essa. Nos desvincularmos um pouco do uso de literatura em sala como um pretexto para estudar gramática, aumentar o vocabulário. Veja bem, claro que essas questões são importantes. Entretanto, estamos falando aqui de uma realidade em que os alunos e alunas não se sentem encorajados a ler. Não se concentram. Não se conectam. Então por que não investirmos na leitura como uma fonte de prazer e abandono, e não uma obrigação curricular?
Bem, como isso pode ser feito na prática? Primeiramente, precisamos saber que o ato de nos apaixonarmos pela leitura não começa quando abrimos um livro. É vital falarmos sobre literatura, termos chances de refletir sobre o que ela tem a oferecer. Faça um quiz sobre lazer e bem estar, fale sobre música, cinema, redes sociais. Use uma personagem fictícia apaixonante em uma atividade. A partir dessas possibilidades, abrimos espaço para a curiosidade de quem nos ouve!
Escute os seus alunos e alunas. Acho que fala isso em 2 a cada 1 postagem do blog. Essas interações, que devem ser feitas na língua estrangeira, abrem os nossos horizontes quanto aos gostos e interesses deles. A aprendizagem significativa é aquela que fica. Sabe quando você reencontra um aluno depois de 10 anos e ele ainda lembra de você? Com certeza você fez algo que o tocou. Por que não usarmos esse poder no letramento? Aproveitar o que eles gostam como tópico e, consequentemente, usar esse fator para aulas futuras pode ser um divisor de águas. Quando estudava francês, uma professora me pediu para falar mais de Johnny Cash, um dos meus cantores favoritos. Eu, que me sentia incapaz de fluir nas conversas, me vi tagarelando com a maior confiança. Parecia até que ela me encantou com um dos feitiços de Harry Potter!
Muitas vezes as instituições decidem que livros devem ser lidos, e o tempo gasto nesse processo. Entretanto, atividades de leitura mais prazerosas podem acontecer em paralelo, e não precisam ocupar um grande tempo da aula. Uma boa ideia é trazer vídeos de pessoas que os alunos admirem (atores, cantores) lendo trechos, falando de obras de que gostam. Estamos vivendo um boom de indicações nas redes sociais. Devemos trazer essa estratégia para o ambiente escolar, e para eles será tudo muito natural.
E, por último, uma provocação. O que você anda lendo? Será que, ao trazer a literatura mais para perto da escola, não podemos também melhorar os hábitos e potencializar esse processo com menos hierarquia e mais diversão? Comente aí embaixo como o uso da literatura em sala te desafia, e que estratégias você emprega para fazer da sua prática pedagógica uma aliada no letramento de seus alunos e alunas!
Referências:
FOLHA DE SÃO PAULO. Jovens leem mais no Brasil, mas hábito de leitura diminui com a idade. 28 de set. de 2019. Disponível em: <<https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2019/09/jovens-leem-mais-no-brasil-mas-habito-de-leitura-diminui-com-a-idade.shtml.>>
INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil. 5 ed. 11 de set. de 2020. Disponível em: <<https://www.prolivro.org.br/>>
SUTHERLAND, John. Uma breve história da literatura. Tradução: Rodrigo Breunig. Porto Alegre: L&PM, 2017.
Comentários
Postar um comentário