Expectativas e personalidade daquele(a) que ensina: você é você mesmo(a) em sala de aula?
Comecei minha carreira dando aulas de inglês para crianças. Com 18 anos e muita vontade de aprender e ser financeiramente independente, me sentia ávida para entender os mecanismos daquela realidade. O primeiro lugar em que trabalhei me ensinou muito, e sinto dizer que não da melhor maneira. Éramos mal remuneradas. As horas de trabalho eram extensas. O ambiente não era dos mais acolhedores. Mas talvez o mais difícil tenha sido a constatação de que o mais importante era conquistar as pessoas, principalmente os alunos. O medo do cancelamento (de matrículas, não esse famoso agora nas redes sociais) batia forte, e parecia estar diretamente ligado não à minha competência, ou prática pedagógica, ou domínio da língua. A balança pendia mais para: Você é divertida? Os alunos gostam de você?
E não importava se aquela pessoa deixasse de fazer o curso por questões financeiras, incompatibilidade com o método ou mesmo por mudar de cidade. Sempre éramos assediadas com insinuações de que poderíamos ter feito mais, ter deixado nossos alunos tão apaixonados que eles fariam o impossível para ficar perto de nós.
Como essa cultura é problemática! E como me machucou perceber que, por anos e anos, o medo da rejeição da minha personalidade me causou dor, desembocando em instabilidade emocional e autoestima baixa.
Eu sou apaixonada por minha profissão. Adoro estudar, interagir com diversas pessoas e ter o privilégio de trazer indagações para a sociedade. Dar aulas é um ato político, e a mistura de engajamento, amor e dedicação, para mim, é receita de felicidade profissional. bell hooks, no artigo "Eros, erotismo e o processo pedagógico" (2010) aborda diversos pontos interessantíssimos sobre a paixão pela docência. Ela fala que
Na medida em que nós, professoras e professores, carregamos esta paixão, que tem de estar fundamentalmente enraizada num amor pelas ideias que somos capazes de inspirar, a sala de aula se torna um lugar dinâmico no qual transformações nas relações sociais são concretamente realizadas e a falsa dicotomia entre o mundo externo e o mundo interno da academia desaparece. (HOOKS, 2010, p. 119)
O posicionamento de hooks me inspirou e ainda me inspira, mas para além da paixão, acho que precisamos discutir o imaginário social de que os professores (principalmente os de cursos livres) são máquinas de entretenimento. Eu sou totalmente a favor de metodologias ativas, uma pegada mais lúdica na sala de aula e a busca por um relacionamento mais próximo entre alunos e professores, mas o que estou falando aqui é: para além de domínio de conteúdo, preparação e práticas pedagogicamente motivadas, tem gente por aí que acha que a personalidade dos professores tem que ser alegre, brincalhona, acessível, flexível, leve, O TEMPO TODO. Por acaso abri um canal de comédia no Youtube e alguém esqueceu de me avisar?
Esta é mais uma daquelas postagens que precisarei retomar, porque é muita reflexão para pouco espaço, mas o que me motiva a falar sobre isso hoje é a tentativa de humanizar professores e professoras, que frequentemente são destituídos do estado de gente que precisa descansar, passar tempo com a família, que tem sentimentos e que sofre. Vejo vários colegas de profissão narrando situações cruéis de descaso, falta de educação, desrespeito, sob o mote de que "ai, eu não gosto dessa matéria, a professora não me ajudou a me apaixonar pelo tema".
E antes que apareçam as histórias horrendas de professores mal educados, misóginos, que humilham alunos e não os tratam com a cordialidade que merecem, já digo que essa classe também é abominável. Nada justifica não olhar para a outra pessoa com cuidado e acolhimento. Independente da profissão e das relações travadas.
Acho que o que quero dizer é que, aos trinta anos, escolhi minhas batalhas. Ainda dói e incomoda. Ainda maltrata. Entretanto, sei quem sou, entendo o meu valor também. Fiz coisas de que não me orgulho na trajetória, mas refleti e ainda reflito sobre erros e acertos. No fim do dia, tento tocar corações, impulsionar trajetórias, acolher pessoas tão diversas, carentes de tantas coisas que nem elas sabem às vezes. No fim do dia, também sei que preciso aceitar e acolher a mim mesma. Existe gente que não vai gostar de você, e vai esperar um tratamento muito longe das suas funções e competências. Para essas pessoas, eu desejo mais humanidade. Muito mais.
Referências:
HOOKS, bell. "Eros, erotismo e o processo pedagógico". IN: LOURO, Guacira Lopes. (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
Parabéns, professora! Ótimo conteúdo
ResponderExcluirObrigada, Elvis!
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